sexta-feira, 24 de julho de 2009

Felizes Para Sempre é luta verbal entre personagens desiludidos

Mais do que uma peça dividida em três partes, “Felizes Para Sempre” é uma luta de três rounds. Um duro embate entre homens e mulheres, em que ambos saem feridos. No primeiro assalto, ou melhor, na primeira história, “Speak Easy”, um homem fuma (últimas baforadas antes que a lei vigore) à espera de sua mulher. Fuma e bebe. Há três dias. “Sweet Jane”, do Velvet Underground, toca no rádio, um dos poucos objetos em cena, além de latas de cerveja, garrafas, abajures e um sofá-cama. Lucia chega e a luta se inicia. Luta verbal, em que as armas usadas são as palavras redigidas pelo autor, Mário Bortolotto. “O Rei do Amor está morto” mostra um casal que discute a masculinidade de James Dean, os fetiches de Elvis Presley e o próprio relacionamento. Em “Sweet Emily”, um ex-pugilista e escritor frustrado volta para casa, após apanhar vergonhosamente em uma briga de rua.

Em todas as cenas, personagens derrotados, perdidos, beijando a lona. Simone Shuba, que assina a direção, consegue imprimir a concisão que o texto pede. A iluminação, com uma luz baixíssima, e o cenário, quase vazio, reforçam o clima de melancolia que permeia a peça.

Adriana Quintanilha, Felipe Ramos, Mariana Marinho e Henrique Zanoni se revezam nos papéis, com destaque para Adriana, a Lúcia da primeira e a Sweet Emily da terceira parte. Em meio à sujeira, à violência e à degradação humana, os personagens ainda conseguem, a seu modo, serem felizes para sempre.

Espaço dos Satyros 1
Texto: Mário Bortolotto
Direção: Simone Shuba
Elenco: Adriana Quintanilha, Felipe Ramos, Mariana Marinho, Henrique Zanoni
Quando: Quinta, 20hs
Onde: Pça Roosevelt, 214
Quanto: R$ 20,00; R$ 10,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt)
Lotação: 70 lugares
Duração: 70min
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama
Quando: até 30 de julho de 2009

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Madrugada dos Vivos

A madrugada é dos vivos. Não há zumbis na madrugada. O bar fecha cedo. Os tempos são outros, tempos obscuros. O jeito é ir embora, encarar a noite alta. Alto. O caminho de volta é tortuoso, depois de horas. Como num filme de Scorsese. O ônibus passa correndo, o jeito é correr atrás. Não sem antes discutir. Não há tempo para assaltos, é preciso alcançar o ônibus que parou no sinal. Ele não vai parar, ele avisa. Eu vou correr atrás de você, ameaça. Tarde demais. A madrugada é dos vivos. Não se pode ficar para trás.

O ônibus não vai muito longe. É preciso pegar outro. Pegar mas não pagar. O crédito acabou. O jeito é mergulhar, como tantas vezes antes. O travesti caminha pela rua ajeitando os peitos. Orgulhoso. O posto é o último refúgio. Uma última cerveja, é tudo o que pede a noite. Mas outros também pedem. O japonês bem vestido e tatuado pede um refrigerante. A voz entrega que não é disso que precisa. Um cara passa correndo. Como se não houvesse amanhã. Segundos depois outro corre atrás. Não existem zumbis na madrugada. Ela é dos vivos, e é preciso correr.

Dois moleques estão felizes. Enganaram um viado. Que queria uma chupada. Viado e pedófilo. Vinte reais mais pobre. Não se pode bobear na madrugada. Um mendigo canta Zeca. Mas de um jeito bem Bezerra. Não há couvert para ele. Ninguém pede bis. É preciso ir embora.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Bortolotto ri de playboys que se acham grande coisa

Duas garrafas de cerveja, um livro dos Malvados e uma coletânea do Iggy Pop na cabeça, fui assistir Será que a gente influencia o Caetano, assinada por Bortolotto e dirigida por Henrique Stroeter e Claudinei Brandão. Diferente da maioria das peças do dramaturgo, que transbordam melancolia, essa aqui vai pelo caminho da caricatura e do escracho. Mas o destino final é o mesmo, a mais pura fotografia de uma geração perdida. O triste é constatar que o texto, de 1985, tirando uma ou outra adaptação aos novos tempos (NX Zero e My Chemical Romance, cada geração tem os ídolos que merece), mantém-se extremamente atual.

O cenário é zero. Nem as fatídicas mesinhas lotadas de garrafas, que fazem parte da maioria das peças do autor, estão presentes aqui (justiça seja feita, em uma cena os personagens dão um tapa numa long neck). Isso dá espaço para que Alexandre Bamba e Mario Mathias brilhem nos papeis de dois losers, dois playboys que, no entanto, acham que são grandes artistas (um músico e um poeta). O sonho dos dois é conquistar a fama e, quem sabe até, fazer uma música que influencie Caetano Veloso (outra triste constatação, ainda hoje a figura de Veloso continua atual).

A quantidade de referências mezzo pop mezzo kitsch faria inveja a Tarantino. Impagável a cena em que os dois dançam Serginho Mallandro. Ídolos (o programa trash), emo, MPB, garotas de cursinho, garotas de faculdade. Tudo vira piada e transborda acidez no texto de Bortolloto. Como diria Gil Vicente, é rindo que se critica. Ou como diria o povo, é rir pra não chorar.

Será que a gente influencia o Caetano?
Onde: Espaço Parlapatões - Praça Franklin Roosevelt, 158, Consolação
Quando: quintas, 21h; sábados, 23h59. Até 28/02.
Quanto: R$ 20,00.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Casamento de Rachel mostra deslocamento de ex-viciada

É de deslocamento que nos fala Jonathan Demme em O casamento de Rachel. Porque é assim que Kym, personagem de Anne Hathaway (indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel) se sente durante grande parte do filme. Kym volta para casa bem a tempo do casamento da irmã, Rachel. O problema é que ela não estava de férias, mas sim internada em uma clínica de reabilitação.

A partir daí, a câmera de Jonathan Demme (que evoca uma câmera caseira, como se víssemos um vídeo de casamento) e os olhos de todos se voltam para Kym. Logo quando ela chega em casa, alguém a reconhece e pergunta se ela não tem “unzinho” pra arrumar. Assim como acontece com ex-detentos, é difícil se livrar da fama de junkie, mesmo para quem está limpo como Kym.

Mas aos poucos o castelo de cartas da família vai caindo, e vemos que não é só no personagem de Hathaway que se concentram os problemas. Se ela é a ovelha negra, o resto do rebanho não é tão branquinho como parece. O pai se preocupa de maneira obsessiva com a filha, a irmã só se preocupa com o casamento, a mãe (divorciada) é ausente, etc.

Assim como em O silêncio dos inocentes e Filadélfia, filmes mais conhecidos de Demme, o protagonista é uma outsider, uma deslocada, uma gauche. Ela simplesmente não se encaixa no meio em que vive. Não por acaso, um dos poucos com quem consegue estabelecer uma relação é com o padrinho, que por acaso faz parte do mesmo grupo de reabilitação que frequenta.

Em muitos aspectos O Casamento de Rachel lembra Feliz Natal, de Selton Mello, que por sua vez lembra os filmes de Cassavetes. Um ente problemático que retorna ao lar, para uma família que, por trás das aparências, também desmorona.

Beleza em meio ao caos de São Paulo

Se a intenção da mostra 300mm, em cartaz no Instituto Cervantes, era recriar o clima da caótica São Paulo, conseguiu. Perto da gravação em espanhol repetida ad nauseum com informações sobre a cidade, o clima da hora do rush da Avenida Paulista, onde fica o Instituto, torna-se quase bucólico.

Mas a despeito do caráter de instalação, a exposição é bem feita e significativa. Diversos aparelhos de televisão de um lado, escadas no meio e imagens projetadas do outro mostram fotografias de São Paulo que apontam a diversidade da capital. Em uma das projeções, imagens de Bob Wolfenson e Tuca Vieira (infelizmente não é discriminado de quem é cada foto) de uma São Paulo ao mesmo tempo caótica e bela. Wolfenson e Vieira conseguem enxergar a beleza (em um simples arco-íris, por exemplo) por trás de elementos tão odiados pelo paulistano, como o trânsito e a superpopulação.

Na projeção do meio, primeiramente são mostradas fotografias de Filipe Berndt, do bairro da Bela Vista, mais especificamente de uma academia montada debaixo de um viaduto, voltada principalmente ao boxe. Berndt, assim como já o fizeram Scorsese e Eastwood no cinema, descortina o que há de belo em um esporte visto muitas vezes apenas como violento. Outra série apresenta a arte urbana tão presente (e tão polêmica) em São Paulo, em imagens de Ignacio Aronovich.

Primeiro a pixação, depois o grafitti. Mas um tipo especial de grafitti, feito no subterrâneo, nas galerias pluviais, por Zezão, que chama a atenção com seus ícones abstratos para o lixo que a cidade produz e prefere esconder. Um dos televisores apresenta um vídeo do mesmo Aronovich sobre o trabalho de Zezão.

A última das projeções contrasta com as demais, por mostrar uma São Paulo em preto e branco, vista de cima, com ar antigo e romântico. Daria até para esquecer um pouco do caos, se não fosse a gravação em repetição contínua, de enlouquecer. Como, muitas vezes, a própria São Paulo.

Onde: Instituto Cervantes - Avenida Paulista nº 2.439
Quando: até 21/02 - segunda-feira das 08h às 20h; terça à sexta das 08h às 21h. Sábado das 09h às 15h.
Quanto: grátis

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Descendo do salto: celebridades são desmistificadas em duas mostras em São Paulo

Está em cartaz no SESC Pinheiros a exposição Voom Portraits, de Robert Wilson. Fruto de um projeto idealizado por uma empresa de televisores de alta definição, as obras de Wilson são um misto de fotografia, vídeo e cinema. Em modernos televisores, são projetadas imagens que, de início, lembram fotos. Aos poucos, o retratado começa a se mover, ou algo começa a acontecer, mas sempre em movimentos contidos.

Diversas personalidades em situações e figurinos excêntricos são retratadas, quase que a desmistificar personagens muitas vezes glamourizados. Steve Buscemi, o Mr. Pink de Cães de Aluguel, tem à frente de si uma imensa peça de carne suja de sangue, assim como o avental de açougueiro que veste. Wynona Rider lembra uma Carmen Miranda, cheia de badulaques na cabeça e quase que enterrada em seu traje. Brad Pitt, apenas de cuecas, toma chuva e porta uma pistola d’água com que atira em direção ao espectador, rompendo a relação objeto filmado/plateia tão cara ao cinema.

Outra boa mostra em cartaz, esta no MuBE, é Chop off Their Heads, com trabalhos de Rankin, fotógrafo que criou a revista Dazed and Confused. Logo na entrada, uma rainha Elizabeth que quase pede para ser rabiscada com um God Save the Queen à moda Sex Pistols. Mas intervenções do tipo não tem sido bem vindas, então é bom conter o ímpeto punk juvenil.

De certo modo, Rankin acaba dialogando com Wilson, já que suas fotos também podem servir para desmistificar os mitos sagrados das celebridades. Em que outro lugar é possível ver George Clooney com o dedo no nariz (ok, ele não está realmente com o dedo no nariz, mas é a ideia que se quer passar) ou Jude Law deitado no ombro amigo de Ronald McDonald? O sisudo James Bond, Daniel Craig, faz uma careta, Bowie arreganha os dentes, os irmãos Gallagher, quase tão famosos por suas brigas quanto por suas músicas, se abraçam fraternalmente. É com o inesperado e com a fuga do óbvio que Rankin trabalha.

O destaque fica para as fotos P/B. Keith Richards e seu inseparável cigarro, toda a angústia de Thom Yorke com seus olhos fechados e o olho quase oriental da islandesa Björk escapando do cabelo que cobre seu rosto só tem a ganhar com esta combinação clássica da ausência de cores.

Robert Wilson - Voom Portraits
SESC Pinheiros - Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros
Grátis
Terça a sexta, das 10h30 às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h30 às 18h30
Até 1º/2.
Tel. - 3095-9400

Chop off Their Heads
MuBE - Av. Europa, 218 - Jardim Europa
Grátis
Terça a domingo, das 10h às 19h.
Até 5/2
Tel. – 2594-2601

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Fodidos e mal pagos *

Para quem recebeu a alcunha de “do vazio”, até que esta Bienal está rendendo alguma coisa. Primeiro foi o show do Fischerspooner, no domingo pós TIM Festival (este sim vazio, aliás).

Agora surge uma bela seleção de filmes, com destaque para alguns sobre música. No último domingo (16/11) foi a estréia, com três sessões de Instrument, documentário que acompanha a trajetória da seminal Fugazi. O seminal aqui não é adjetivo-clichê de crítico preguiçoso, pois a banda acabou responsável pela criação de um movimento, o straight-edge, mesmo que involuntariamente.

De início (o grupo surge nos idos de 1987) uma banda de hardcore, o som evolui ao longo dos discos para algo mais amplo, experimental, um pós-hardcore, para os que não vivem sem um rótulo. E por dez anos o diretor Jem Cohen acompanha esta evolução em um estilo similar ao da banda, sem explicar muita coisa, em grande parte apenas registrando os sons e as imagens. A opção se mostra bastante acertada. Por diversas vezes pessoas nas filas dos shows são mostradas, apenas imagens, nada de entrevistas. Aqueles rostos, aqueles tipos, bastam por si mesmos como registro do tipo de público que a banda atrai. Quando finalmente o diretor resolve ouvi-los, pouca coisa coerente se salva.

Uma banda tão atípica como o Fugazi só poderia ganhar uma sessão igualmente fora do comum. Projetado no terceiro andar da Bienal, os visitantes entravam na sala, ficavam por alguns segundos expostos ao som pouco palatável da banda e iam embora. Além de mim, apenas uma garota assistiu do começo ao fim.

* Fugazi é a junção das primeiras letras de Fucked Up, Got Ambushed, Zipped In, uma gíria usada pelos italianos na 2ª Guerra e reutilizada pelos americanos no Vietnã que quer dizer algo como “fudeu, emboscada, foi pro saco”.