Está em cartaz no SESC Pinheiros a exposição Voom Portraits, de Robert Wilson. Fruto de um projeto idealizado por uma empresa de televisores de alta definição, as obras de Wilson são um misto de fotografia, vídeo e cinema. Em modernos televisores, são projetadas imagens que, de início, lembram fotos. Aos poucos, o retratado começa a se mover, ou algo começa a acontecer, mas sempre em movimentos contidos.
Diversas personalidades em situações e figurinos excêntricos são retratadas, quase que a desmistificar personagens muitas vezes glamourizados. Steve Buscemi, o Mr. Pink de Cães de Aluguel, tem à frente de si uma imensa peça de carne suja de sangue, assim como o avental de açougueiro que veste. Wynona Rider lembra uma Carmen Miranda, cheia de badulaques na cabeça e quase que enterrada em seu traje. Brad Pitt, apenas de cuecas, toma chuva e porta uma pistola d’água com que atira em direção ao espectador, rompendo a relação objeto filmado/plateia tão cara ao cinema.
Outra boa mostra em cartaz, esta no MuBE, é Chop off Their Heads, com trabalhos de Rankin, fotógrafo que criou a revista Dazed and Confused. Logo na entrada, uma rainha Elizabeth que quase pede para ser rabiscada com um God Save the Queen à moda Sex Pistols. Mas intervenções do tipo não tem sido bem vindas, então é bom conter o ímpeto punk juvenil.
De certo modo, Rankin acaba dialogando com Wilson, já que suas fotos também podem servir para desmistificar os mitos sagrados das celebridades. Em que outro lugar é possível ver George Clooney com o dedo no nariz (ok, ele não está realmente com o dedo no nariz, mas é a ideia que se quer passar) ou Jude Law deitado no ombro amigo de Ronald McDonald? O sisudo James Bond, Daniel Craig, faz uma careta, Bowie arreganha os dentes, os irmãos Gallagher, quase tão famosos por suas brigas quanto por suas músicas, se abraçam fraternalmente. É com o inesperado e com a fuga do óbvio que Rankin trabalha.
O destaque fica para as fotos P/B. Keith Richards e seu inseparável cigarro, toda a angústia de Thom Yorke com seus olhos fechados e o olho quase oriental da islandesa Björk escapando do cabelo que cobre seu rosto só tem a ganhar com esta combinação clássica da ausência de cores.
Robert Wilson - Voom Portraits
SESC Pinheiros - Rua Paes Leme, 195 - Pinheiros
Grátis
Terça a sexta, das 10h30 às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h30 às 18h30
Até 1º/2.
Tel. - 3095-9400
Chop off Their Heads
MuBE - Av. Europa, 218 - Jardim Europa
Grátis
Terça a domingo, das 10h às 19h.
Até 5/2
Tel. – 2594-2601
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Fodidos e mal pagos *
Para quem recebeu a alcunha de “do vazio”, até que esta Bienal está rendendo alguma coisa. Primeiro foi o show do Fischerspooner, no domingo pós TIM Festival (este sim vazio, aliás).
Agora surge uma bela seleção de filmes, com destaque para alguns sobre música. No último domingo (16/11) foi a estréia, com três sessões de Instrument, documentário que acompanha a trajetória da seminal Fugazi. O seminal aqui não é adjetivo-clichê de crítico preguiçoso, pois a banda acabou responsável pela criação de um movimento, o straight-edge, mesmo que involuntariamente.
De início (o grupo surge nos idos de 1987) uma banda de hardcore, o som evolui ao longo dos discos para algo mais amplo, experimental, um pós-hardcore, para os que não vivem sem um rótulo. E por dez anos o diretor Jem Cohen acompanha esta evolução em um estilo similar ao da banda, sem explicar muita coisa, em grande parte apenas registrando os sons e as imagens. A opção se mostra bastante acertada. Por diversas vezes pessoas nas filas dos shows são mostradas, apenas imagens, nada de entrevistas. Aqueles rostos, aqueles tipos, bastam por si mesmos como registro do tipo de público que a banda atrai. Quando finalmente o diretor resolve ouvi-los, pouca coisa coerente se salva.
Uma banda tão atípica como o Fugazi só poderia ganhar uma sessão igualmente fora do comum. Projetado no terceiro andar da Bienal, os visitantes entravam na sala, ficavam por alguns segundos expostos ao som pouco palatável da banda e iam embora. Além de mim, apenas uma garota assistiu do começo ao fim.
* Fugazi é a junção das primeiras letras de Fucked Up, Got Ambushed, Zipped In, uma gíria usada pelos italianos na 2ª Guerra e reutilizada pelos americanos no Vietnã que quer dizer algo como “fudeu, emboscada, foi pro saco”.
Agora surge uma bela seleção de filmes, com destaque para alguns sobre música. No último domingo (16/11) foi a estréia, com três sessões de Instrument, documentário que acompanha a trajetória da seminal Fugazi. O seminal aqui não é adjetivo-clichê de crítico preguiçoso, pois a banda acabou responsável pela criação de um movimento, o straight-edge, mesmo que involuntariamente.
De início (o grupo surge nos idos de 1987) uma banda de hardcore, o som evolui ao longo dos discos para algo mais amplo, experimental, um pós-hardcore, para os que não vivem sem um rótulo. E por dez anos o diretor Jem Cohen acompanha esta evolução em um estilo similar ao da banda, sem explicar muita coisa, em grande parte apenas registrando os sons e as imagens. A opção se mostra bastante acertada. Por diversas vezes pessoas nas filas dos shows são mostradas, apenas imagens, nada de entrevistas. Aqueles rostos, aqueles tipos, bastam por si mesmos como registro do tipo de público que a banda atrai. Quando finalmente o diretor resolve ouvi-los, pouca coisa coerente se salva.
Uma banda tão atípica como o Fugazi só poderia ganhar uma sessão igualmente fora do comum. Projetado no terceiro andar da Bienal, os visitantes entravam na sala, ficavam por alguns segundos expostos ao som pouco palatável da banda e iam embora. Além de mim, apenas uma garota assistiu do começo ao fim.
* Fugazi é a junção das primeiras letras de Fucked Up, Got Ambushed, Zipped In, uma gíria usada pelos italianos na 2ª Guerra e reutilizada pelos americanos no Vietnã que quer dizer algo como “fudeu, emboscada, foi pro saco”.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Acelerados
É a porta dos desesperados: você troca o festival Planeta Terra, com suas zilhões de atrações ocorrendo simultaneamente, pelo show do R.E.M.? Siiim! (Bom, neste caso, o TIM seria aquele cara vestido de macaco que saía assustando a molecada de uma das portas).
Se o PT mais uma vez pecou por fazer seu público perder shows imperdíveis (Rapture ou Devo em 2007, Foals ou The Jesus and Mary Chain em 2008) com seu esquema de shows simultâneos, e algumas bandas cuja expectativa era alta deixaram um pouco a desejar, caso do próprio JAMC, além de Bloc Party, o R.E.M. apresentou nesta terça (11/11) em São Paulo talvez o melhor show do ano.
Mesclando músicas do novo álbum, Accelerate, com clássicos como Orange Crush, It’s The End of The World as We Know It (And I Feel Fine), Losing my Religion e What's the Frequency, Kenneth?, a banda mostrou uma apresentação vigorosa e intensa, diferente do modo burocrático como tocou o JAMC, por exemplo. Prova de que, independente da idade, é possível manter a vontade e o tesão pela música.
Só por momentos como Everybody Hurts, cantada em uníssono pelos 6 mil presentes, já valeria a pena. Após duas horas, o show termina com Man on the Moon. Foi mais fácil o homem chegar à Lua do que o R.E.M. a São Paulo. Mas a espera foi plenamente recompensada.
Se o PT mais uma vez pecou por fazer seu público perder shows imperdíveis (Rapture ou Devo em 2007, Foals ou The Jesus and Mary Chain em 2008) com seu esquema de shows simultâneos, e algumas bandas cuja expectativa era alta deixaram um pouco a desejar, caso do próprio JAMC, além de Bloc Party, o R.E.M. apresentou nesta terça (11/11) em São Paulo talvez o melhor show do ano.
Mesclando músicas do novo álbum, Accelerate, com clássicos como Orange Crush, It’s The End of The World as We Know It (And I Feel Fine), Losing my Religion e What's the Frequency, Kenneth?, a banda mostrou uma apresentação vigorosa e intensa, diferente do modo burocrático como tocou o JAMC, por exemplo. Prova de que, independente da idade, é possível manter a vontade e o tesão pela música.
Só por momentos como Everybody Hurts, cantada em uníssono pelos 6 mil presentes, já valeria a pena. Após duas horas, o show termina com Man on the Moon. Foi mais fácil o homem chegar à Lua do que o R.E.M. a São Paulo. Mas a espera foi plenamente recompensada.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Adolescentes fluorescentes – “Arctic Monkeys at The Apollo”
Se Walter Benjamin (1892-1940) tivesse nascido uns anos mais tarde, poderia ter desenvolvido sua teoria a respeito da aura ao assistir a "Arctic Monkeys at The Apollo", filme que retrata o último show da turnê do grupo inglês, ocorrido em 17 de dezembro de 2007. Assistir a um show ao vivo é uma experiência única, catártica muitas vezes, impossível de se reproduzir por meio de um filme. Quem vê um show gravado tem a mesma sensação de quem assiste a um jogo na TV ou a um filme pornô. Até que é legal, mas o bom mesmo seria estar lá.
Se a comparação filme/show ao vivo é injusta com o primeiro, resta então analisar a obra pelo que é. Para azar de "Arctic Monkeys at The Apollo", também sobre este prisma ele sai perdendo. Pois “...at The Apollo” não difere em nada de qualquer DVD de show encontrado aos montes hoje em dia. Faltou a Richard Ayoade, que assina a obra, arriscar mais. Filmado em 16 mm, poderia ter se aproximado mais do cinema, utilizado ângulos menos óbvios, recursos originais, enfim, entregar mais do que simplesmente imagens da banda em ação. O que se salva é a bela iluminação, muitas vezes escura no geral, com luz apenas nos garotos da banda. “Adolescentes fluorescentes”, parece evocar a luz. Mas fica só nisso. Se bem que, para a geração YouTube, acostumada que está com imagens de shows pixeladas e tremidas, assistir a 76 minutos de bons sons e imagens nítidas não deixa de ser um alívio.
Se a comparação filme/show ao vivo é injusta com o primeiro, resta então analisar a obra pelo que é. Para azar de "Arctic Monkeys at The Apollo", também sobre este prisma ele sai perdendo. Pois “...at The Apollo” não difere em nada de qualquer DVD de show encontrado aos montes hoje em dia. Faltou a Richard Ayoade, que assina a obra, arriscar mais. Filmado em 16 mm, poderia ter se aproximado mais do cinema, utilizado ângulos menos óbvios, recursos originais, enfim, entregar mais do que simplesmente imagens da banda em ação. O que se salva é a bela iluminação, muitas vezes escura no geral, com luz apenas nos garotos da banda. “Adolescentes fluorescentes”, parece evocar a luz. Mas fica só nisso. Se bem que, para a geração YouTube, acostumada que está com imagens de shows pixeladas e tremidas, assistir a 76 minutos de bons sons e imagens nítidas não deixa de ser um alívio.
Marcadores:
Arctic Monkeys,
Arctic Monkeys at The Apollo,
Walter Benjamin
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Art Bitch
Para a “Bienal do vazio”, até que estava bem cheio. Uma fila quilométrica saía da porta da Bienal à espera de uma performance artística. Os artistas em questão eram a dupla de eletrônica Fischerspooner. Dançarinas, vídeos, luzes, roupas extravagantes. Arte moderna. Mas, por trás disso tudo, o que se viu na noite de domingo no prédio da Bienal foi nada mais do que um bom show de eletro-rock. Sorte do público. Casey Spooner se vê como um performer, mais do que um vocalista, mas sua performance não passou de briguinhas ensaiadas com uma dançarina, a quem obrigou dar uma ajeitada no cabelo. Warren Fischer, alheio aos estrelismos do parceiro, é o grande responsável pela massa sonora e pelas batidas do som da dupla. Com um set curto (pouco mais de uma hora), isso depois do público ter de implorar por um bis, já que o vocalista queria ir embora logo para alguma festa pós-show, eles mandam novamente Emerge, o maior hit do Fischerspooner e uma ótima música de pista. Para artistas performáticos, o Fischerspooner se sai como uma ótima dupla eletrônica.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Lição de casa
Depois da escola foi pensado inicialmente pelo diretor e roteirista Antonio Campos como uma metáfora ao 11/09. Duas gêmeas morrem em um colégio, gerando comportamentos paranóicos e controle rígido sobre os alunos por parte da direção. As semelhanças com a paranóia americana e a lei de exceção baixada por Bush não são mera coincidência.
Mas o filme não fica só nisso, funcionando independentemente das torres, sendo a história de como a morte das meninas foi encarada por todos. Robert, aluno-problema, é incumbido da tarefa de gravar uma homenagem às vítimas.
E aí entra a metalinguagem, já que Robert é o retrato de ninguém mais se não Campos. Assim como o diretor que lhe dá vida, o garoto opta por uma câmera que foge dos ângulos óbvios e uma edição distante do lugar-comum, culminando em um filme ao mesmo tempo singelo e político, pois mostra como muitas vezes as lágrimas e depoimentos emocionados são previamente ensaiados.
A visão de Robert sobre as gêmeas é rechaçada. “Nem tem música”, protesta o professor (ou diretor da escola, enfim, o produtor/estúdio do vídeo), que manda reeditar tudo. Resulta da mesma maneira que um filme qualquer sobre as vítimas do WTC: piegas e irrelevante. Tudo o que Depois da escola não é.
Quando: 30/10, quinta-feira, 21:50
Onde: CineSesc (32ª Mostra Internacional de Cinema)
Mais info: http://www.mostra.org/32/exib_filme.php?filme=40
Mas o filme não fica só nisso, funcionando independentemente das torres, sendo a história de como a morte das meninas foi encarada por todos. Robert, aluno-problema, é incumbido da tarefa de gravar uma homenagem às vítimas.
E aí entra a metalinguagem, já que Robert é o retrato de ninguém mais se não Campos. Assim como o diretor que lhe dá vida, o garoto opta por uma câmera que foge dos ângulos óbvios e uma edição distante do lugar-comum, culminando em um filme ao mesmo tempo singelo e político, pois mostra como muitas vezes as lágrimas e depoimentos emocionados são previamente ensaiados.
A visão de Robert sobre as gêmeas é rechaçada. “Nem tem música”, protesta o professor (ou diretor da escola, enfim, o produtor/estúdio do vídeo), que manda reeditar tudo. Resulta da mesma maneira que um filme qualquer sobre as vítimas do WTC: piegas e irrelevante. Tudo o que Depois da escola não é.
Quando: 30/10, quinta-feira, 21:50
Onde: CineSesc (32ª Mostra Internacional de Cinema)
Mais info: http://www.mostra.org/32/exib_filme.php?filme=40
Marcadores:
32ª Mostra Internacional de Cinema,
Depois da escola
Não é mais 1992 (mas parece)
"Não estamos mais em 1992", gritou Mark Arm, vocalista do Mudhoney, sexta passada (17/10) na Clash, após dezenas de moshs terminarem em quedas no extenso vão entre o público e o palco (um pé sobrou nos meu óculos, uma lente quebrou, mas quem se importa?).
Não é mais 1992, mas algum incauto bem que poderia confundir a São Paulo atual com a Seattle da época do grunge. Se não vejamos: tivemos nos últimos tempos shows dos Melvins, do Mudhoney, Stone Temple Pilots anunciado e depois cancelado e vem aí The Vaselines, que não é da chuvosa cidade americana (quase, são da Escócia), mas uma das bandas prediletas de Kurt Cobain, que fez questão de gravar diversas covers da banda, como Son of a Gun e Molly's Lips.
O show do Mudhoney (terceiro que vejo, só perdi quando abriram para o Pearl Jam) é de uma intensidade absurda, catártico mesmo. Não só em Touch me I'm sick, mas durante todas as músicas o público enlouquece. When tomorrow hits, Who you drivin' now, Good Enough, Hate the police (não necessariamente nesta mesma ordem), estavam todas lá. Faltou Into the drink. Mas tudo bem. Eles voltam.
Não é mais 1992, mas algum incauto bem que poderia confundir a São Paulo atual com a Seattle da época do grunge. Se não vejamos: tivemos nos últimos tempos shows dos Melvins, do Mudhoney, Stone Temple Pilots anunciado e depois cancelado e vem aí The Vaselines, que não é da chuvosa cidade americana (quase, são da Escócia), mas uma das bandas prediletas de Kurt Cobain, que fez questão de gravar diversas covers da banda, como Son of a Gun e Molly's Lips.
O show do Mudhoney (terceiro que vejo, só perdi quando abriram para o Pearl Jam) é de uma intensidade absurda, catártico mesmo. Não só em Touch me I'm sick, mas durante todas as músicas o público enlouquece. When tomorrow hits, Who you drivin' now, Good Enough, Hate the police (não necessariamente nesta mesma ordem), estavam todas lá. Faltou Into the drink. Mas tudo bem. Eles voltam.
Assinar:
Postagens (Atom)